Cadeira: 35
Data de nascimento: 30/10/1993
Naturalidade: Itararé
Patrono: Aluísio Azevedo
Data de posse: 13/06/2026
Advogado e Produtor Cultural, Mestre em Estudos da Condição Humana (PPGECH UFScar – Sorocaba), especialista em Direitos Humanos e Questões Sociais pela PUCPR, com formação de extensão em Política, Cultura e Cidadania pela Universidade Federal da Bahia. Professor de Processo e Prática Penal (CEUNSP). Atualmente, tenho dedicado minha atuação nas questões de cidadania e garantias LGBT+ no interior, presidindo a Entrelaços, organizadora da Parada LGBT+ de Salto, responsável pelo lançamento do primeiro bloco LGBT+ da cidade de Salto, Diretor Tesoureiro e Coord. Humanidades da OAB Salto, Membro Efetivo Regional da Comissão de Direitos Humanos da OAB São Paulo.
UM AGRADECIMENTO À MEMÓRIA DAQUELE MENINO
Discurso de Posse – Academia Saltense de Letras
Bom Dia a todas as pessoas aqui presentes,
Meus formais e cordiais cumprimentos a Ilmª. Presidenta da Academia Saltense de Letras, Dra. Marilena Matiuzzi, uma mulher que segue à frente do seu tempo, que tem minha sincera admiração e consolidado respeito, na pessoa de quem cumprimento meus confrades e confreiras da Academia Saltense de Letras;
Meus cumprimentos e agradecimentos a minha Madrinha Rose Ferrari, hoje somando o título de confreira ao já certo título de amiga, que me indicou para essa tão importante honraria, me apresentou a vocês que me permitiram estar neste espaço elementar aos amantes da língua e escrita. Agradeço a confiança!
Agora o mais importante dos cumprimentos dedico a minha mãe, Sonia Regina Lourenço Alexandrino, meu pai, Edson Ferreira Alexandrino, a minha mãe-do-direito Andréa Dias Ferreira, e minha ya Vera ty Oyá. A Daniel e Adriano, meus amigos mais sinceros, todas as amigas, filhas/os e pessoas que me compartilham um pouco de vida nos dias de desesperança. Vamos vencendo!
Vou me permitir o saudosismo neste momento, em respeito àquele menino que cresceu numa cidade afastada da capital, com pedreiras e cachoeiras, chamada Itararé: “a pedra que o rio cavou” (Tupi-Guarani). Um menino que cresceu numa casa de liberdade, respeito e amor.
Que descobriu, muito cedo, que não seria capaz de superar as expectativas que fossem colocadas sobre ele, era impossível. Era um menino livre demais para ficar preso na expectativa de qualquer pessoa, por mais amadas que fossem elas.
E, meio tropeçando, foi aprendendo que o jogo da liberdade é muito mais gostoso do que o jogo da conformidade, por mais que seja imensuravelmente mais cansativo.
Acredito que meus pais, já se conformando que rédeas não me seriam colocadas, me prepararam para a vida pela intelectualidade. Minha mãe conta que meu pai montou uma coleção de enciclopédias, daquelas em fascículos, editada pela Folha de São Paulo e O Globo, quando eu ainda era bem pequeno, me incentivando, já naquela época, a ler e escrever. Por tempos, meus únicos amigos foram os livros, depois vieram os desenhos e a escrita. Fui me construindo pela literatura e pela cultura.
E num salto de tempo que a escrita me permite. Eu lembro do dia em que aquele menino entrou num carro rumo à Salto. O carro, cheio de coisas, tudo meio apertado, mas muito folgado perto do apertado nó na garganta. Leve comparado ao peso das lágrimas que não se aguentavam nos olhos, transbordando vida. Uma vida minha, do meu jeito, longe de todo mundo e sempre acompanhada do amor e da saudade daqueles que deixei.
Na minha mudança tinha um bom bocado de sonhos, um pouco de deslumbre, uma dúzia de livros e uma vontade muito grande de conquistar o mundo.
Salto me recebeu pelo acaso de uma amizade que durou o tempo suficiente para me fazer chegar aqui. E, de tão bem recebido que fui, me fiz por aqui. E posso dizer que me fiz muito bem: conheço muita gente, fiz aqui amizades de uma importância inimaginável, criei família e deixei algumas boas coisas na história. Sou muito feliz por viver em Salto, por poder produzir cultura e formar pessoas por aqui.
Hoje vivo pela educação, ensinando pessoas na Faculdade de Direito de Salto. Fundei a primeira Associação LGBT+ da cidade, e realizo a maior manifestação sociocultural pela liberdade que temos por aqui: a Parada do Orgulho LGBT+ de Salto.
Tudo resultado de uma educação realmente libertadora, vinda de uma família pertencente à classe trabalhadora, consciente de seus privilégios e algozes, e, evidentemente, de políticas públicas, como o Prouni, que me fizeram terminar a faculdade de direito e, posteriormente, continuar minha formação em universidades federais, como a Universidade Federal da Bahia e a Universidade Federal de São Carlos, onde mestrei em Estudos da Condição Humana.
Justo por isso, sou muito feliz por ocupar uma cadeira patroneado por Aluísio Azevedo, excelência da literatura brasileira, que se dedicou a uma escrita política, preocupado em apontar as contradições sociais e buscar compreender a formação da sociedade urbana e as tensões de classe. É uma honra muita grande, assim como é também a responsabilidade.
Responsabilidade de me manter firme à realidade, de não me alienar diante das facilidades da vida e perder o sentido político da escrita.
Venho a vocês partindo de um trabalho de escrita crítica e política – minha dissertação de mestrado – reforçando o peso político da palavra escrita.
De se marcar na história oposição àqueles que querem fazer ódio-regra num mundo de amor-exceção.
Nesses parágrafos finais, com um nó bem apertado na garganta ao escrever esse discurso, me lembro de uma frase curta em tamanho e de imensurável sentido, escrita pelo meu Patrono Aluízio Azevedo “Infeliz daquela a quem não é dado chorar; só o pranto afaga a dor que a vontade não vence destruir.” (Uma lágrima de mulher, 1880)
Por vezes tentaram me ensinar que homem não chora, mas eu francamente nunca liguei muito para essa história de masculinidades. Que o pranto de agora não afague uma dor que a vontade não venceu distribuir, mas contemple a vitória de um caminho de amor, liberdade e humanidades.
E hoje, minhas confreiras e meus confrades, com os meus mais sinceros cumprimentos, tomado por grande alegria, me torno um membro da Academia Saltense de Letras, ocupando a cadeira patroneada por Aluísio Azevedo.
Que presente da vida! Vila longa à Academia Saltense de Letras.
Edson Alexandrino / Koba
13, junho, 2026