Sem palavras

A vida inteira busquei Explicações e deciframentos: encontrei silêncio e segredo, às vezes o conforto de um ombro. outras vezes dor. No último lapso de um tempo sem limites – embora a gente o queira compor em fragmentos -, abriram-se as aguas e entrei onde estivera. Tudo compreendido e absolvido, absorta eu me tornei luz […]

Poesias de Manuel Bandeira

Versos Escritos N’água Os poucos versos que aí vão, Em lugar de outros é que os ponho. Tu que me lês, deixo ao teu sonho Imaginar como serão. Neles porás tua tristeza Ou bem teu júbilo, e, talvez, Lhes acharás, tu que me lês, Alguma sombra de beleza… Quem os ouviu não os amou. Meus […]

De bandeirinhas vermelhas a hashtags, a mensagem é a mesma: fique em casa

Texto publicado originalmente na edição de 24 de abril de 2020 no Jornal Primeira Feira. Coluna: Um dedinho de prosa Logo nos primeiros meses do ano de 1887, uma epidemia de varíola atacou a Província de São Paulo, isso fez com que muitas pessoas das cidades vizinhas se deslocassem até Salto em busca de refúgio […]

Ideal do Caboclo

Ai, seu moço, eu só quiria pra minha filicidade, um bão fandango por dia, e um pala de qualidade. Pórva, espingarda e cutia, um facão fala-verdade e ua viola de harmunia pra chorá minha sódade. Um rancho na bêra d’água, vara de anzó, pôca mágoa, pinga boa e bão café… Fumo forte de sobejo… Pra […]

O que é a arte no meio de uma quarentena?

A inspiração vem dos lugares mais diversos. A minha veio ao ler um trabalho escolar de minha filha, Isadora. Estamos todos isolados aqui em casa, como muitos de vocês devem estar. E a visão singular dela sobre esse momento me tocou e acredito que também tocará a vocês. ….. O que é a arte no […]

A doença invisível

O HOMEM NU NO MEIO DA RUA ria e apontava o dedo para cima. A chegada da viatura chamou sua atenção e, num salto leve e surpreendente, caminhou sobre ela com passos de bailarino. Uma roupa lhe foi estendida para esconder a afrontadora nudez. Das janelas do prédio alto, vultos curiosos espiavam pelas janelas – […]

Poemas de Hilda Hilst

I – Poemas aos Homens do nosso tempo Amada vida, minha morte demora. Dizer que coisa ao homem, Propor que viagem? Reis, ministros E todos vós, políticos, Que palavra além de ouro e treva Fica em vossos ouvidos? Além de vossa RAPACIDADE O que sabeis Da alma dos homens? Ouro, conquista, lucro, logro E os […]

Três heterônimos de Pessoa

Poema em linha reta Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, […]

Instantes

Se eu pudesse novamente viver a minha vida,na próxima trataria de cometer mais erros.Não tentaria ser tão perfeito,relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.Seria menos higiênico. Correria mais riscos,viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,subiria mais montanhas, nadaria mais rios.Iria a mais lugares onde nunca fui,tomaria mais sorvetes […]

Cartas de amor a Heloísa

◊ Dizes que brevemente serás a metade de minha alma. A metade? Brevemente? Não: já agora és, não a metade, mas toda. Dou-te a minha alma inteira, deixe-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te.◊◊◊Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em 1892, na cidade de Quebrangulo, em Alagoas. Morreu […]