Cadeira: 19
Data de nascimento: 07/07/1970
Naturalidade: David Canabarro/RS
Patrono: Olavo Bilac
Data de posse: 13/06/2026
Filósofo, historiador e escritor. Sua formação em Filosofia orienta uma escrita voltada à investigação da experiência humana, sobretudo nos limites entre presença e apagamento, memória e silêncio.
Sua obra se concentra em dar forma narrativa a histórias e sujeitos à margem, articulando reflexão filosófica, memória e território. Mais do que narrar acontecimentos, examina os mecanismos pelos quais a realidade é construída, reconhecida ou suprimida. Entre a literatura e o pensamento, sua escrita opera por deslocamento e escuta crítica, trazendo à superfície o que foi historicamente relegado. Nesse processo, a palavra deixa de ser apenas registro e se torna um espaço de inscrição, em que narrar implica produzir reconhecimento.
Além da criação literária, atua nos campos editorial e educacional, com projetos voltados à formação de leitores e à ampliação do acesso ao livro. Nesse âmbito, entende a leitura como prática ativa de liberdade e participação social.
Senhora Presidente da Academia Saltense de Letras, Marilena Matiuzzi, e, por seu intermédio, saúdo toda a Diretoria desta Academia;
Senhoras acadêmicas, senhores acadêmicos;
Autoridades presentes;
Amigos, familiares;
Senhoras e senhores.
Há ocasiões em que a palavra deixa de ser apenas expressão e passa a assumir o peso do compromisso. Creio que esta manhã seja uma delas.
Tomar posse em uma Academia de Letras não significa apenas receber uma distinção honorífica. Significa aceitar uma responsabilidade diante da memória, da linguagem e da continuidade cultural de uma comunidade.
Recebo esta cadeira com honra, mas também com consciência do que ela representa.
Porque nenhuma cadeira acadêmica chega verdadeiramente vazia.
Ela carrega a memória de seus patronos, das vozes que ajudaram a construir nossa tradição literária e a convicção de que a palavra possui consequências humanas muito além daquilo que, muitas vezes, imaginamos.
Talvez muitos de nós tenhamos descoberto isso cedo: em uma biblioteca, numa sala de aula, num livro encontrado quase por acaso. Muitas vezes, é um professor quem realiza esse gesto decisivo sem sequer imaginar a extensão de suas consequências.
Também a minha relação com a leitura nasceu desse espanto silencioso: a percepção de que os livros não apenas informam ou entretêm. Eles modificam a maneira como escutamos, lembramos e compreendemos a vida.
Ao assumir uma cadeira cujo patrono é Olavo Bilac, somos naturalmente conduzidos à imagem do grande poeta parnasiano, mestre da forma e do rigor estético.
Mas reduzir Bilac apenas ao poeta seria diminuir sua dimensão intelectual.
Bilac compreendeu algo que continua profundamente atual: literatura e vida pública jamais estiveram verdadeiramente separadas.
Participou dos debates de seu tempo, defendeu a educação, acreditou na leitura como experiência civilizatória e percebeu que as sociedades também se constroem pelas palavras que escolhem preservar.
Porque a linguagem não apenas descreve o mundo.
Ela ajuda a definir formas de convivência.
E talvez seja exatamente aí que Bilac continue tão atual.
Vivemos um tempo em que nunca nos comunicamos tanto, e poucas vezes dialogamos tão pouco.
A velocidade da reação frequentemente substitui a profundidade da reflexão. O excesso de informação convive, paradoxalmente, com a escassez de escuta.
E isso produz consequências humanas.
Porque o modo como uma sociedade fala revela também o modo como ela convive.
Quando a linguagem se degrada, o debate público se degrada junto. Quando desaparece a capacidade de nuance, desaparece também parte da nossa capacidade de compreender a complexidade humana.
Talvez esteja aí uma das razões pelas quais a literatura continue tão necessária.
A literatura desacelera o olhar. Devolve densidade às palavras. Obriga-nos a permanecer diante das ambiguidades humanas sem reduzi-las imediatamente ao julgamento ou ao ódio.
Ler literatura é reaprender a escutar.
Também por isso a leitura nunca foi, para mim, apenas um exercício intelectual. Foi uma forma de aprender que a vida raramente se oferece de maneira simples e que compreender o outro exige tempo, atenção e linguagem.
Bilac certamente compreenderia a gravidade de um país que ainda convive com milhões de brasileiros privados do direito elementar à leitura e à escrita.
Isso não representa apenas uma falha educacional.
Representa uma ferida social e civilizatória persistente.
Porque o analfabetismo não limita apenas o acesso aos livros. Limita o acesso à autonomia, à participação pública e à própria possibilidade de compreender plenamente o mundo e de ser ouvido dentro dele.
Num país marcado por desigualdades tão profundas, defender a leitura continua sendo, antes de tudo, defender a dignidade humana.
E talvez esta continue sendo uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo: recuperar a dignidade da palavra.
Reconstruir a possibilidade do diálogo.
Reaprender a escutar.
Minha relação com Salto também foi construída ao longo do tempo.
Muito antes de aqui estabelecer residência, esta cidade já aparecia em diferentes momentos da minha trajetória. Aos poucos, aquilo que começou como passagem transformou-se em pertencimento.
Foi aqui que reencontrei amigos, ampliei vínculos, retomei projetos literários e aprofundei uma relação com a cultura que continua sendo uma das dimensões mais importantes da minha vida.
Por isso, Salto não é, para mim, apenas o lugar onde vivo.
É uma cidade que ajudou a moldar parte daquilo que sou.
E talvez seja justamente por isso que a reflexão sobre memória cultural adquira aqui um significado especial.
Uma cidade não permanece viva apenas porque cresce.
Permanece viva quando continua capaz de reconhecer aquilo que a formou.
Há memórias que não vivem apenas nos monumentos. Vivem nas escolas, nas bibliotecas, nas conversas, nos livros e nos gestos discretos de quem preserva uma história para que ela não desapareça.
É justamente por isso que as instituições culturais permanecem tão necessárias.
Uma Academia de Letras não deve existir apenas como espaço de celebração do passado.
Deve ser também uma casa de escuta, de encontro, de formação e de defesa da palavra, em um tempo que frequentemente a reduz à pressa, ao ruído e à reação imediata.
Ao longo de seus anos de existência, a Academia Saltense de Letras tem contribuído para manter viva essa presença da cultura na cidade, promovendo encontros, publicações, debates e iniciativas que aproximam a literatura da comunidade. É uma história construída por muitas mãos, à qual me sinto honrado em passar a pertencer.
Num tempo em que tantas opiniões são produzidas em segundos, uma das experiências mais subversivas talvez ainda seja sentar-se diante de um livro e aceitar o ritmo lento da reflexão.
Talvez essa seja uma das heranças mais importantes de Bilac: a compreensão de que cultura e vida pública não podem existir separadas.
Ao longo desta reflexão, talvez tenhamos percebido que a permanência de Olavo Bilac não se explica apenas pela importância histórica de sua obra.
Há escritores que pertencem ao passado.
E há escritores que continuam fazendo perguntas ao futuro.
Bilac talvez pertença às duas categorias.
Porque sua trajetória nos lembra algo que o mundo contemporâneo frequentemente esquece: a linguagem possui consequências humanas.
Palavras aproximam ou afastam.
Humanizam ou brutalizam.
Criam diálogo ou aprofundam rupturas.
Chegar a esta Academia significa, para mim, muito mais do que receber uma honra institucional.
Significa reconhecer uma continuidade.
A continuidade de uma relação com os livros, com a leitura e com a palavra.
Recebo esta cadeira não apenas como distinção.
Mas como compromisso.
Compromisso com a palavra que aproxima mais do que divide.
Com a palavra que preserva a memória.
Com a palavra que ainda acredita na possibilidade do diálogo e da convivência humana.
Porque a palavra não existe apenas para ser admirada.
Ela existe para criar humanidade.
Muito obrigado.