
Salto perdeu, um de seus homens mais raros, e a Academia Saltense de Letras perdeu um de seus fundadores, presença viva em quase duas décadas de sua história.
Antônio Oirmes Ferrari atravessou a vida pública da cidade como professor, diretor de escola, Secretário da Educação e vereador. Em cada uma dessas funções deixou seus traços reconhecíveis: a gentileza, a generosidade, a paciência; a disciplina sem rigidez; a visão de longo prazo para a educação em construção; o zelo pela cidade, pela cultura, o amor incondicional que tinha pela vida. Foram décadas de trabalho contínuo.
Na Academia Saltense de Letras, foi um dos fundadores da instituição, sucedeu o fundador na presidência e, mais tarde, tornou-se presidente emérito, recebendo o reconhecimento de seu trabalho e presença dedicados à educação e à cultura de nossa cidade. Ocupou, desde o primeiro dia, a Cadeira nº 7, cujo patrono é Machado de Assis, e correspondeu a essa escolha com mérito, pois conhecia a obra machadiana com profundidade, e dedicava à língua portuguesa o mesmo cuidado que Machado lhe dedicou em vida.
Rui Barbosa, ao se despedir de Machado de Assis em nome da Academia Brasileira de Letras, disse que a morte “não extingue: transforma; não aniquila: renova; não divorcia: aproxima.” Toninho permanece, agora, transformado nessa mesma memória que ele próprio ajudou a construir nesta Academia, como fundação.
Completaria noventa anos ainda este ano, e ensinou até o fim. Manteve, dentro da Academia, a coluna semanal de sua autoria, “Nosso Idioma”, e sua última publicação se deu em 1º de junho, prova de que a língua portuguesa permaneceu, até os últimos dias, assunto vivo para ele.
Era, além de tudo isso, um homem gentil e generoso. Sabia ouvir, e dava a cada amigo o melhor de si, a atenção, o respeito, a dedicação que lhe eram próprios.
Em nome da Academia Saltense de Letras, registramos nossa mais profunda homenagem a um homem de valor inigualável para esta cidade. Quase noventa anos de vida e perto de sessenta de trabalho dedicado à educação, à cultura e à língua portuguesa deixam um patrimônio que esta Academia tem o dever de preservar, que é o exemplo de alguém cuja presença, em cada cargo e em cada cadeira que ocupou, em cada aluno que formou e em cada amigo que fez, foi sempre marcada pela mesma generosidade. Salto e a Academia Saltense de Letras são, hoje, mais ricas de história por terem tido a presença e o trabalho de Antônio Oirmes Ferrari.
À família de Antônio Oirmes Ferrari, a Academia renova seu carinho. Fica, desta vida, o exemplo de um homem que serviu à educação, às letras e às pessoas com a mesma constância, e que soube, durante quase noventa anos, nunca deixar de ser bom.
Marilena Matiuzzi – Presidente da Academia Saltense de Letras